28 de novembro de 2019

Por que decidi cursar Medicina Veterinária?


A resposta para a pergunta do título não é tão fácil assim de responder e, ao mesmo tempo, é meio óbvia. 

Bom, vamos do começo. Respira, pega uma água e senta, porque é um texto grande. 

Sou formada em Direito há dez anos e exerço a profissão há oito. Nunca nem pensei em fazer absolutamente nada diferente de ser advogada, exceto esse ano que entrei em um curso universitário de Redes de Computadores para me atualizar, pois a maioria dos contratos que faço são da área de tecnologia. 

Em 2012, após anos sem ter nenhum bichinho de estimação, porque minha família e eu havíamos sofrido muito com a morte do último, vi uma feira de adoção em um Pet Shop perto de casa. Após convencer meu irmão a ir na feira só olhar (mentira), fui até lá na intenção de adotar um filhotinho de cachorro, mas me apaixonei perdidamente por um filhotinho de gatinho. 

Já tive alguns gatos, mas como morava em um sítio, eles viviam soltos e pouco ficavam em casa e morriam logo por envenenamento, atropelamento ou os cães matavam, então eu nunca tive um gato de maneira consciente, até porque era muito pequena para cuidar sozinha de um animalzinho, tanto que, quando adotei o Fabian, eu nem tinha o apartamento telado. Vivi uma semana com as janelas fechadas até que a empresa de tela chegasse. 

Desde o Fabian até a metade de 2019 foram quatro gatinhos adotados. Fabian (jul/2012), Eva (nov/2012), Miu mil (dez/2012) e Boris (set/2013), que já foi adotado com quatro aninhos. Meus gatos nunca tiveram problemas de saúde graves. Era sempre uma gripinha aqui, uma otite ali, tudo se curava fácil e eu levava na veterinária da minha rua. O Pet Shop dela é simples, nem sistema online tem, ela guarda tudo na cabeça, então ela sempre foi meio perdidinha. 

Acontece que em meados de Abril desde ano, passeando no parque perto de casa, vimos um gatinho. Era um gato grande e ele estava sentado ao lado de uns garotos de bicicleta e estava bem cuidado. Achamos, é claro, que o gato era de uma das casas ali perto, pois sempre tem gatinhos sentados na frente das casas perto do parque. Após quinze dias, voltamos ao parque e o gato estava lá, deitado no meio de espinhos, parecia um pouco triste. Minha mãe não esqueceu o gato, só falava dele, então voltamos ao parque e ele estava lá ainda. Tentamos pegá-lo, mas ele fugiu e entrou em uma casa. Aí estava a prova, o gato tinha dono. 

Minha mãe só falava do gato e a chuva e o frio aumentando nessa época. Ela dizia que o gato não tinha dono e ela não podia deixar ele lá. Então, no dia 30 de maio fomos até o parque e o gato lá, lindão, olhando tudo. Falamos com o segurança do parque e ele disse que um homem veio em um carro e largou o gato ali, mas não era pra mexer no gato que tinha gente cuidando, pra gente ir embora. O homem foi super grosso e mal-educado. Fingimos que íamos embora e minha mãe chamou o gatinho, ele veio mais para perto e pronto, já estava no colo dela dentro do carro. 

Liguei para a minha veterinária habitual e ela não tinha horário para aquele dia, só para a segunda feira e era uma quinta. Não poderia esperar tanto tempo para ver se o gato estava bem. Então levamos a um Pet Shop 24h que tem no meu bairro. Bem mais caro, mas eles faziam todos os exames que precisávamos. Para ilustrar a história, vamos chamar esse Pet Shop de "Palmar". Uma médica nos atendeu. Nada simpática, nem um pouco humana e me pareceu não entender nada de muita coisa. Sequer conseguiu verificar se era um gato ou gata, mas pediu todos os exames de rotina. 

No dia seguinte, fomos até a outra unidade para fazermos exame de sangue, urina e ultrassom. Após meia hora esperando, levaram o gato para dentro e não me deixaram acompanhar NENHUM exame. Pouco tempo depois, passam carregando o gato como um saco. Questionei o que estava acontecendo e eles disseram que o gato era muito arisco e que precisavam sedar para fazer o ultrassom. Pedi para entrar e ajudar a segurar, que eu não queria que sedassem o gato, não permitiram. Ou sedava, ou não fariam nada. Então, deixamos sedar. 

Com o resultado do exame nas mãos e o gato bem, fomos ao retorno. "Descobrimos" que era uma gata e ela estava muito bem, obrigada e tem cerca de 3 anos, nem pulga ela não tinha. Chamamos ela oficialmente de Gigi, pois foi o único nome que ela olhou pra gente depois de chamarmos, mas hoje o nome dela sofreu uma mutação e é Jojoca, mais conhecida como Joca. 

Vinte e dois dias depois, minha mãe quis ir ao parque novamente. Minha mãe gosta muito de luz do sol e plantas e natureza, então, mesmo contra a minha vontade, eu fui ao parque. Era dia 21 de Junho, emenda de feriado de Corpus Christi e eu só queria ficar em casa fazendo minhas mil coisas atrasadas. Avisei que se fosse ao parque e encontrasse um gatinho, ia pegar para mim e foda-se. Uma clara brincadeira com o que ela havia feito com a Jojoca pouco tempo antes. 

Dito e feito. Havia ali outra gatinha no mesmo lugar em que a Jojoca estava vinte dias antes. Eu sabia que era uma gata porque ela era tricolor. Falei com ela e ao andar na minha frente, me chamou atenção aquele barrigão dela. Com certeza a gatinha deveria estar prenha e eu não iria permitir que ela tivesse os filhotinhos naquele frio. O inverno deste ano foi muito gelado em São Paulo. 

Como era emenda de feriado, minha veterinária habitual não estava aberta e mais uma vez levei ao "Palmar". O dono do Pet Shop iria nos atender, pois só ele estava de plantão. Fiquei muito feliz pois ele, como dono do lugar, deveria ser alguém bem competente. O dono é o veterinário mais simpático que já fui, uma pessoa incrível, mas nas palavras dele "NÃO ENTENDIA NADA DE GATOS". Pelo menos ele foi sincero. 

Disse que a gatinha estava no terço final da gravidez e poderia parir entre dez e doze dias. Fiquei bem assustada, pois a gatinha é bem pequenininha, pesava pouco mais de dois quilos e poderia ter até seis filhotinhos, pois ele havia sentido, pelo menos, quatro durante a apalpação. Com o pedido dos exames na mão, no dia seguinte levei a gata até a outra unidade e não permiti levarem ela a lugar nenhum sem mim. 

Durante o ultrassom, foi verificado que a gata estava castrada e não tinha nenhum filhote ali. Mas, no laudo, colocaram útero, ovários e todo o sistema reprodutor normal, mesmo que nas imagens dê para ver claramente que ela não tem nada disso. Me senti lesada, roubada e bastante enganada. 

No retorno, passamos com um outro médico que me ofendeu do primeiro fio de cabelo até o dedão do pé. Até de louca dos gatos ele me chamou. Disse que a gata tinha dono, que era muito bonitinha para estar largada na rua, mesmo com pulgas e problemas de pele devido a exposição sol e continuou me ofendendo, dizendo que eu deveria largar ela de novo no lugar que achei que ela iria para casa. 

Depois desse episódio, decidi que NUNCA mais voltaria a colocar meus pés dentro do "Palmar" e levei a gata na minha veterinária habitual assim que possível. Ela está bem, tratou das pulgas e dos problemas de pele e tem cerca de seis anos, mesmo tão pequena que parece um filhote. Chamamos ela de Sophie, mas atende carinhosamente por Fifinha. 

Com todo o estresse da adaptação, pois não entrava um gato em casa há sete anos, meu gato mais velho Boris, começou a perder pelo e como ele completou 10 anos, quis fazer um check-up nele e levei na veterinária habitual que receitou ômega 3 e pediu exame de sangue e urina. Boris tinha algumas aftas pois a ração que dávamos para os nossos gatos mudou de fórmula e não estava fazendo bem a ele. Com os exames, descobrimos que Boris é FIV+ (imunodeficiência felina) e, diante disso, a veterinária disse que não poderia, nem tinha conhecimento para cuidar de um gato FIV+, que muito provavelmente ele não duraria mais um ano e que eu levasse em outro lugar especializado. 

Fiquei tão sem chão que só sabia chorar. A pessoa que eu confiava a vida do meu bichinho tinha lavado as mãos e dado uma expectativa de vida baixíssima para o meu gatinho. Poxa, tem tanto gato que vive tanto e o Boris não poderia viver mais porque tinha FIV+? 

Passei quinze dias procurando um novo veterinário. Os especializados em gato tinham consultas que custava mais de R$400 reais ou ficavam muito longe e eu não queria estressar o Boris com viagens longas de carro. 

Durante esse tempo, vi que o Boris parou de piscar do olho direito. De um dia para o outro ele não tinha mais sensibilidade do lado direito do rosto. Isso foi a noite, então passei a madrugada procurando um bom veterinário e encontrei um centro veterinário que fazia vários exames e tinha veterinários especialistas em várias áreas e mesmo não tendo um especializado em gato, achei que seria bom, mesmo com uma consulta custando R$225. Levei ele no dia seguinte às 17h para uma consulta, vamos chamar esse Pet Shop de "Lugar de Pet". 

O "Lugar de Pet", apesar de ficar em um bairro bem-conceituado, é velho, malcuidado e as cadeiras da sala de espera estava todas quebradas. Esperei meia hora para ser atendida (isso porque tinha marcado hora) e a veterinária veio nos atender. Pelo menos, ela tinha um computador para fazer a ficha do Boris. Olhou o gato, examinou e encontrou dois nódulos na garganta e dois nódulos na barriga dele. Ela estava certa que meu gato tinha câncer e em um estágio avançado que provavelmente estava crescendo atrás do olho e pressionando os nervos, causando a paralisia. 

Essa veterinária pediu oito exames para ele, sendo Relação de proteína, FIV e FELV, ultrassom abdominal, ultrassom de cervical, Raio X de tórax, SDMA, um eletrocardiograma e GGT. Ai você e eu nos perguntamos, mas e o Raio X de cabeça? Segundo a médica, ela queria descartar outras doenças piores e, depois, pediria exames complementares, mas receitou um líquido para colocar na orelhinha e limpar o canal auditivo e ela conseguir examinar melhor. Mesmo eu pedindo várias vezes para ela fazer um novo hemograma no gato ela não quis, disse que o hemograma de pouco mais de um mês atrás era o suficiente. A recepcionista, ficou de me mandar as datas dos exames e os valores por mensagem no sábado, pois já era sexta (08/11) 19h30 e ela só veria as agendas no dia seguinte. 

Já era segunda-feira a tarde e nada da recepcionista me retornar com o valor ou os dias que teria agenda para Raio X, Ultrassom e Eletro. Então, liguei em uma veterinária diagnóstica que haviam me indicado e marquei tudo lá. Ficou uma fortuna, mas era para o bem do meu gatinho. Na segunda, por volta das 18h30 a recepcionista me mandou o valor de alguns dos exames pelo WhatsApp (senso de urgência zero, neh meu amor?), outros ela não tinha certeza, pois não realizavam naquela unidade, apenas coletariam a urina e o sangue e mandariam para outro lugar realizar. Nem me dignei a responder, pois só os exames que ela tinha me passado o preço, já era 30% mais caro do que iria pagar nos oito exames em outro lugar. 

Não tenho como reclamar da veterinária diagnostica que levei o gato. Chegamos cerca de uma hora antes, pois como estavam agendados para 7h40 da manhã e o transito em São Paulo é infernal, saí de casa às 6h e cheguei lá 6h15 da manhã. Antes das 7h Boris já estava fazendo o ultra de cervical com uma médica maravilhosa e uma assistente muito carinhosa com meu gatinho. Só tenho a agradecer a todos dessa veterinária diagnostica que se alguém perguntar, já indico de primeira. 

Bom, quando começaram a chegar os resultados, por volta das 15h de terça (12/11) a recepcionista me mandou mensagem bem da surpresa por eu ter feito o ultrassom em outro lugar porque ela já tinha deixado agendado e estava conciliando as datas, mas o ultra só teria data na quinta (véspera de feriado) e os outros para a outra semana. 

Bom, com os exames na mão, marquei retorno para o “Lugar de Pet” mas não levei o gato porque ele estava MEGA estressado e não queria tirar ele de casa de novo. A veterinária ficou surpresíssima por eu não ter levado o gato e mesmo eu dizendo que não queria estressar mais ele, ela ficou querendo ver o gato e, pasmem, nem ficou vermelha quando viu que os exames e os nódulos que ela tinha sentido não existiam. 

No Raio X o tórax apareceu uma bolinha de menos de um centímetro que ela afirmou categoricamente que era uma neoplasia (câncer) e queria fazer uma punção no meu gato. Disse que não permitiria porque era bem perto do coração e ninguém iria fazer pulsão no gato. Então, ela queria uma tomografia e para tanto, teria que sedar o gato e entubar. Mais uma vez, não permiti, pois ele estava estressado com tantos exames e eu não queria que ele ficasse mais. Então, ela me disse que poderia ser uma sombra de uma veia do coração que passa ali perto e que acompanharíamos isso e em seis meses tiraríamos outro Raio X, até agora, nada de falar sobre o que estava incomodando o gato, a paralisia do lado direito do rosto. 

Eu havia notado que, depois de aplicar o liquido para limpeza do canal auditivo, o Boris já tinha começado a dormir de olho fechado, coisa que ele não fazia. Então, as coisas estavam melhorando e claramente ele tinha alguma coisa na orelha, mas a médica ainda assim queria ver o gato, não passou nada para ele, nem antibiótico, nem anti-inflamatório, nada. Ficamos de retornar na segunda, pós feriado prolongado. 

No sábado, Boris voltou a regredir e não fechava mais o olho para dormir. Na segunda feira ele começou a chacoalhar a cabeça e sempre perdia o equilíbrio após isso, começando a cair do sofá, da cama, da mesa e não acertava mais os pulos. Voltei na veterinária com o gato e ela o examinou todinho de novo e chamou outra veterinária para segurar a cabeça dele e colocou o otoscópio na orelha direita do gato. Foi aí que ele começou a se coçar loucamente e a chacoalhar a cabeça. Ela disse que colocaria a cera numa lâmina e veria no microscópio. Saiu da sala e o gato passou a ficar com a cabeça inclinada. Quando a médica voltou, disse que a cera era normal e ela só queria descartar sarna de ouvido. Sou leiga e não sei se é assim que se faz, mas QUEM FALOU EM SARNA DE OUVIDO ATÉ AGORA? 

Só então, ela pediu um Raio X na cabeça e me forçou a fazer naquele lugar lá do início que maltratou a Jojoca, que me ofendeu e achou úteros na Fifinha, o “Palmar”. Eu já tinha dito para ela, na primeira consulta, que não colocaria meus pés no “Palmar” nunca mais na vida e disse pra ela que odiava o “Palmar” e lá eu não iria com o Boris, mas ela, muito carinhosa disse para eu abrir o coração e fazer lá porque a médica radiologista dessa clinica era a mesma do “Palmar”, mas era um serviço totalmente apartado dos serviços do “Palmar”e ela só confiava nessa médica. 

Fiquei tão passada que não sabia nem o que fazer. Meu gato tinha sido machucado, andava inclinado, se coçando muito e amuado pela casa, coisa que até agora não tinha feito. Claramente ela machucou algo dentro da orelhinha dele, mas eu não levaria meu gato no “Palmar” nem se chovesse canivetes no resto da cidade todinha. Doze dias sem nenhuma medicação, doze dias sem nenhum senso de urgência, tudo para encontrar um tumor que provavelmente não existe!

Marquei o Raio X para o outro dia às 19h30 naquela veterinária diagnostica que tratava meu gato com dignidade e lá fui eu depois de um dia de trabalho. Mais uma vez, os atendentes e o radiologista eram incríveis. Ele me paramentou para segurar o Boris e ajuda-lo na radiografia, em menos de meia hora estava tudo OK e eu estava fora da clínica. 

Um transito infernal na 23 de maio em véspera de dia da consciência negra. Eu precisava chegar até um pet shop na Av. dos Bandeirantes que tinha veterinário até as 23h30. Assim, dava tempo do exame chegar e de atender meu gato no mesmo dia, não importava se o veterinário saberia mexer no gato ou não, eu tinha 10 exames laboratoriais e a certeza de que o Boris precisava de um antibiótico para otite interna. 

Nesse Pet Shop o atendimento era por hora de chegada. Aguardei quase uma hora para que uma vet nos atendesse, mas ela fez toda a apalpação no gato e antes mesmo de ver os exames do Boris, sabia que ele tinha dor na orelhinha e criticou o fato de não termos um exame de sangue, pois com gato, de uma semana para outra o exame de sangue pode mudar. 

Quase uma hora e meia de consulta depois, ela medicou o Boris com antibiótico, anti-inflamatório e analgésico com injeção e receitou os comprimidos. Agora, ele está em tratamento por 14 dias com antibióticos, anti-inflamatórios e analgésicos para dor. 

Foi nesse dia que decidi ser veterinária. Eu não posso permitir que mais pessoas brinquem com a vida dos meus bichinhos por conta de mais trezentos ou quatrocentos reais. Meu único medo é não ser forte o suficiente e chorar o tempo todo. 

Quando eu estava prestes a desistir, vi a notícia do pet shop que congelava os bichinhos para continuar cobrando internação. Como alguém pode chegar a um ponto desses por dinheiro? Brincar com a vida dos animais e dos donos, pessoas que amam seus bichinhos? 

Sei que serão cinco longos anos e muito dinheiro investido, mas nunca mais ninguém vai brincar com a saúde dos meus bichinhos por ganancia. 

Esse relato é de uma mulher que ama muito seus gatos e não suporta que sofram por ganancia de terceiros. É o relato de uma mulher que vê pessoas não cuidarem dos seus bichinhos por que não podem pagar e isso lhe corta o coração. É o relato de um ser humano querendo ajudar outros seres, humanos ou não. 

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